14/01 – Primeira brasileira especializada em harpa barroca, recifense Priscila Gama lança EP com tributo a Marielle e Ágatha Félix.

14/01 – Primeira brasileira especializada em harpa barroca, recifense Priscila Gama lança EP com tributo a Marielle e Ágatha Félix.

Artista é uma das poucas pessoas com domínio do instrumento raro e faz show no Paço do Frevo

Após mais de 20 anos de estudos musicais e apresentações em palcos do Brasil e da Europa, a recifense Priscila Gama lança, neste sábado, nas plataformas digitais e em show no Paço do Frevo, o EP “Amelinda”. No repertório, além das faixas do EP, entram frevos de Antônio Maria e Capiba, “Assum preto”, de Luiz Gonzaga, e músicas tradicionais brasileiras. Marcado por reflexões intimistas e com forte conotação política e social, a cantora, harpista, flautista e compositora presta homenagens a Marielle Franco e Ágatha Felix, divaga sobre a imigração e reflete sobre os impactos da pandemia, que a afastou da família e de amigos durante lockdown na Itália, onde mora.

Chama a atenção a leveza artística com a qual a artista explora temas densos, como os assassinatos da vereadora Marielle Franco, executada junto com o motorista Anderson Gomes, em março de 2018, e da garotinha Ágatha Felix, de apenas 8 anos, baleada pela polícia ao lado da mãe quando voltavam para casa.  “Temas políticos mexem muito comigo. Sempre reflito sobre a nossa responsabilidade sobre isso, a parte que nos cabe enquanto aliados de causas importantes”, reflete.

Dos temas sociais ao jogo de palavras, é possível perceber o apreço pelos versos escritos, ponto de partida de Priscila para a criação. A influência dos cânticos e das tradições populares se percebe no canto, explorado também de forma conceitual, como no coro de “Presente”, que guarda em si, ao mesmo tempo, dor, lamento e a continuidade das ideias de Marielle. Em algumas passagens, a lembrança do ouvinte é conduzida ao cantarolar das matriarcas, muito presente na cultura nordestina, indígena, africana, celta.

As composições sofrem influência da música popular brasileira e erudita para criar uma sonoridade própria e guarda uma peculiaridade rara – provavelmente inédita – entre as obras brasileiras: o instrumento de base é a harpa barroca, que teve apogeu durante o século 17, na Itália. Priscila atualmente aprimora os conhecimentos na Scuola Civica di Musica de Milano com Mara Galassi, um dos principais expoentes da harpa barroca em todo o mundo.

De difícil execução, a harpa utilizada contém 83 cordas dispostas em três fileiras paralelas e é tocada através do dedilhar, assim como o violão. A harpa sinfônica (ou de pedais) integra as orquestras, mas a barroca é difícil de encontrar e não é ensinada em nenhuma instituição no Brasil, razão que levou Priscila, cuja graduação universitária em música é dedicada à flauta doce, também de origem barroca, a buscar conhecimento em outro país.

Faixas

As cinco músicas de “Amelinda” são autorais, gravadas no Conservatório Pernambucano de Música com incentivo cultural do SIC – Sistema de Incentivo à Cultura / Fundação de Cultura Cidade do Recife / Secretaria de Cultura / Prefeitura da Cidade do Recife. Os arranjos são assinados por ela e alguns contam com colaborações das instrumentistas convidadas, todas mulheres – Karol Maciel (sanfona), Laís de Assis (viola de 10 cordas), Cynara Casé (baixolão) e Tainá Menezes (percussão).

Os únicos homens envolvidos na produção musical foram o marido, Marcelo Cabral de Mello, que divide com ela a produção musical, edição e mixagem, e Homero Lotito, responsável pela masterização. A produção executiva é de Ana Sofia Oliveira e o design gráfico, de Priscila Lins.

A faixa-título, que abre o EP, é um neologismo. Amelinda é uma espécie de entidade para quem a cantora desabafa acerca de incertezas e inseguranças, como numa prece. As estrofes melódicas, aprimoradas pela sanfona de Karol Maciel, remetem à música popular nordestina e os versos representam alguns anseios dos imigrantes – como ela, que à época estava em lockdown na Itália.

“Forrar a cama” foi a primeira composição da artista para a harpa barroca, em 2017, sobre uma poesia singela guiada pela frase “Como um lago num dia de calmaria”, dita pelo pai de Priscila. Ela buscava um tema simples, que transmitisse aconchego e tranquilidade, como a musicalidade, e proporcionasse o aconchego de um leito do qual não se quer sair, como versa em “pera lá, que eu vou já”.

Composta em memória da menina Ágatha Felix, “A bala e a gata preta” não é uma típica música de protesto. Como numa declaração, o eu lírico é a própria bala a lamentar seu destino traçado. “Esse caso é como um atestado de que falhamos como sociedade. O Brasil tinha que parar diante de uma situação dessas, porque bala perdida a gente sabe que só acontece em bairro pobre e só encontra o corpo negro”, reclama a autora. Alguns irão perceber a alusão a “Acorda amor”, de Chico Buarque, que denunciava, na década de 1970, a atuação policial no trecho “Chame o ladrão”.

“Balbúrdia em Santa Rosa”, cantada em português e occitano, é a mais animada e dançante. Composta na Itália, foi inspirada pela narrativa de uma briga familiar. A “fofoca” foi transformada em uma poesia de cordel e musicada com influências do trovadorismo medieval e da tradição repentista, reforçada pela viola de 10 cordas tocada por Laís de Assis. O trecho em occitano é a primeira estrofe da trova “Lo ferm voler”, inserido como música incidental.

O encerramento fica por conta de “Presente”, tributo à vida e ao legado de Marielle Franco. É a mais densa do EP, embora suave na melodia. “Eu lembro de uma frase de Silvia Pérez Cruz, ao tocar “Asa branca”, de Luiz Gonzaga, em um show. Ela diz que é muito bonita a capacidade do brasileiro de cantar uma coisa triste com uma melodia feliz, de uma maneira feliz. É uma característica nossa”, compara Priscila.

Escrita em 2018, ainda sob as emoções provocadas pelo brutal assassinato, ela faz referência à Favela da Maré, onde Marielle nasceu, foi criada e se lançou candidata, e recorda a icônica fala na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro na qual disse que não seria interrompida. Para o coro, a artista contou com participações da mãe, Inês, e das irmãs, Andrea Gama e Iara. “É um grito de lamento e dor. Mas é também a voz que ecoa, de várias formas. A irmã dela, Anielle, acabou de ser nomeada como ministra de Igualdade Racial”, comemora.

A artista 

Natural do Recife, a compositora, harpista, flautista e cantora Priscila Gama iniciou os estudos musicais no Conservatório Pernambucano de Música (CPM) aos 7 anos. É bacharel em música, no instrumento flauta doce, pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Participou de master classes em festivais de flauta doce e de música antiga com diversos professores renomados nacional e internacionalmente. Integrou diversos grupos, como o Flauta de Bloco, o Consort de Flautas da UFPE, o coro Opus 2, o Txaimus, o Allegretto, a banda autoral Araçá Blu como vocalista e instrumentista e tocou em projetos camerísticos, de orquestra barroca e grupos medievais em várias cidades europeias.

Serviço

Lançamento do EP “Amelinda”, de Priscila Gama

Show: 14 de janeiro, às 16h, no Paço do Frevo (Praça do Arsenal, s/n, Bairro do Recife)

Músicas disponíveis no dia 14 de janeiro, a partir da 0h

Acesso através do ingresso do museu: R$ 10 e R$ 5 (meia). Professores e estudantes da rede pública não pagam

 Crédito da imagem – Kamila Ataíde, André Sidarta

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